Dentadura
sergiodiassilva, 28.4.07 1 Comentários
Viajar de carro durante várias horas leva-me a ouvir notícias dadas por emissoras diferentes; caso nunca se tenham apercebido, as notícias que as rádios dão são, basicamente, as mesmas durante todo o dia. A não ser que aconteça alguma coisa nova entretanto, que passará a ser a primeira notícia. Mas as seguintes continuarão iguais, quer no texto quer no comentário gravado do jornalista designado para aquele caso específico. Comentário esse que parecerá, sempre, ser feito em directo e com grande risco por parte do jornalista. Regra geral, há sempre um esforço por não dar a entender que depois de gravar aquela notícia, o jornalista em questão já almoçou, mudou o óleo ao carro e plantou uma árvore. Porque o importante é que o ouvinte ache que aquele jornalista parou tudo o que estava a fazer, à hora certa, para lhe dar, àquele ouvinte específico, a notícia, passando então a ser a responsabilidade do ouvinte passar a palavra porque, naturalmente, foi o primeiro a saber.
O primeiro, o menor, está relacionado com o hábito de ter cãezinhos fofinhos como são, por definição, os Doberman e os Rotweiller. Considerando que os cães costumam ser utilizados em anúncios de produtos de higiene e limpeza, os Doberman e os Rotweiller são, claramente, suficientemente fofinhos para serem a cara de uma marca de papel higiénico. Um papel higiénico com espinhos e ácido sulfúrico. Parece-me que esse produto estaria ao nível da fofice de um Doberman ou de um Rotweiller. Mas o que acho mais estranho é mesmo a necessidade que os donos sentem de justificar o quão fofinhos os seus cães são. “Não, não, ele tem este olhar sanguinário mas é uma doçura de animal, consegues fazer-lhe festas perfeitamente, desde que não estejas na mesma sala que ele” ou “Ahah, não te preocupes, este só ladra, não morde, a não ser que te mexas. Se te mexeres, arranca-te uma mão como se fosse gelatina, mas se te mantiveres completamente imóvel durante uns minutos não te faz nada.” são frases de quem, parece-me, não está completamente convencido da abrangência da fofice do seu animal. Não vejo porquê, já que quando uma pessoa olha para um Doberman ou para um Rotweiller, associa imediatamente a coisas fofinhas como “algodão-doce”, “campos de flores” e “SANGUE”. Portanto, que alguém tenha em casa um cãozinho assim, fofinho, é uma coisa que me preocupa.
"O meu nome é Florzinha, gosto de festinhas, bolinhas de borracha e de SANGUE."
magnífico. deu trabalho ler todos (sim todos, sou bastante desocupada) os textos anteriores, mas valeu certamente a pena. adoro sempre rir feita parva, sentada à frente do pc, sozinha, enquanto olham para mim de lado.
muitos parabéns